Charles Sanders Peirce

Fotomix e ilustra: Serbrand.

Charles Sanders Peirce,
(r)evolucionário.

 

Nascido em Cambridge, Massachutes (EUA), em 1839, Peirce faleceu em 1914, na cidade de Pensilvânia. Notável pensador na história da Filosofia moderna, sua obra rompeu paradigmas com o pensamento clássico e deixou sementes para a (r)evolução da Ciência contemporânea. 

 

 

 

 

 

Mais conhecido pela teoria dos signos, a Semiótica, Peirce comumente é associado aos estudos das linguagens e comunicações humanas. Mas sua obra possui uma intensidade, extensão e profundidade tão complexas, que podemos considerá-lo precurssor de um sistema filosófico inteiro, que envolve váriadas disciplinas e doutrinas teóricas: Fenomenologia, Estética, Ética, Lógica (Semiótica) e Metafísica; além do método-científico, o Pragmatismo, que se tornou uma corrente filosófica vigorosa nos Estados Unidos do início do século vinte, influenciando contemporâneos como William James (1842-1910) e John Dewey (1859-1952). Apesar de um movimento recente e crescente de estudos mais aprofundados sobre a obra de Peirce nas últimas décadas, sua teoria vem promovendo o surgimento de novas epistemologias científicas nos campos do direito, educação e, mais recentemente, comunicação desde meados doséculo XX.

 

Mas ainda pode-se considerar sua obra pouco conhecida e compreendida. O filósofo não legou à ciência apenas a teoria dos signos. Deixou sementes de uma Cosmologia, com um novo pensamento sobre o mundo, os fenômenos e nós mesmos. Rompeu com a tradição racionalista e nominalista que vigoraram no desenvolvimento científico durantes séculos e, quiçá, ainda é predominante em muitas áreas do conhecimento, como por exemplo, da Comunicação Aplicada, Administração de Empresas, Marketing e Mercadologia, como as pesquisas Multiverso/MSO apontaram. 

 

Conhecer e compreender suas ideias é por si uma experiência ao complexo do autoconhecimento e do próprio conhecimento. Seu pensamentos incentivam caminhos para uma diferente compreensão dos fenômenos, termos e conceitos que temos sobre a realidade, a vida, a Natureza e o Universo. Sua ideias promovem a integração do ser no mundo, corpo, organismo e mente, conjugados com um imensurável coletivo de existências que, em conjunto, interagem e evoluem continuamente.

 

Também preparam a mente para lidar com uma dúvida genuína, aquela que nasce da experiência de viver a realidade no fluxo do sentir, interagir, pensar e retroagir, em contínuo. Ao contrário do cogito, como início da jornada de investigação científica, a experiência empírica com um objeto ou fenômeno existente, interagente, alter e cognoscível.

 

Parte-se da consciência de um mundo pleno de significados à serem descobertos. Neste trajeto, quanto mais conhecimento sobre este mundo, mais conhecemos a nós mesmos. Assim, se desfaz a consciência antropocêntrica e desaba a hierarquia racional sobre a Natureza e o Universo. O predomínio idealista do "ego universal" sobre-humano perde o sentido e poder de moldar hábitos. Em troca, uma imersão em um imensurável multiverso de possibilidades. Considera-se a partir daqui, que estamos integrados com um mundo-pensante e não com o "mundo-coisa", à espera de uma mente humana à dar-lhe sentido e, assim, a única capaz de introduzir este objeto no mundo tornando-o real.

 

Na visão realista é diferente, porque adquire-se a consciência de que é esse mundo que nos ensina a viver. Ele que nos dá sentido, e revela "Eu", diferente de todas as outras existências, por mais que similares. É ele que nos pariu, com o que chamamos de evolução. A verdade, portanto, é um atributo da realidade e não da pura capacidade subjetiva do pensamento humano. Cabe à nossa iniciativa querer descobrir esse eu-mundo, que integra o eu-particular.

 

As ideias de Peirce apresentam um convite às origens, ao aprendizado contínuo, à possibilidades de realizações futuras e o momento presente, imprevisível. 

 

Peirce era versado em muitas ciências, mas no início do século 20, com o capitalismo moderno ainda em formação, marcas não eram ainda tema das ciências. Hoje, mais de cem anos após sua morte (1914), sua filosofia fornece as bases para uma real disrupção sobre o mundo, a vida, e porque não, a marca, que não é só ideia, nem palavra, mas corpo, organismo e experiência .

 

Conheça mais sobre Peirce e suas ideias.

 

 

 

Charles Sanders Peirce e a (r)evolução científica.

O texto abaixo foi composto com trechos extraídos da dissertação "Marca Significa?", 2019, de Ricardo da Silva Mello, pesquisa desenvolvida com apoio do CNPq (acesse o link Texturas e baixe o PDF completo deste ensaio) e releituras Multiverso. Uma seleção de temas em pauta nas pesquisas Multiverso.

 

 

(...)

 

A obra de Charles Sanders Peirce, como muitos comentadores apontam ainda é pouco conhecida dentro do meio acadêmico, mesmo com sua importante contribuição para a ciência. Mas vem sendo há décadas estudado na Comunicação e já faz parte do programa de cursos latu-senso que preparam profissionais de design para a atuação no mercado. Mesmo assim, sua filosofia ainda é pouco conhecida e talvez até compreendida, especificamente neste último ambiente do conhecimento, das ciências aplicadas em comunicação. “C. S.. Peirce [...], foi um autor praticamente desconhecido para a comunidade científica da sua época e só recentemente sua obra passou a ser discutida no âmbito das Ciências Humanas e Sociais” (MERRELL, 2012).

 

Era um multicientista, versado em diferentes áreas como: Lógica, Química, Física e Matemática. Escreveu importantes teorias nestes campos. Filho de um acadêmico de Harvard, o matemático Benjamin Peirce (1809-1880), teve formação científica laboratorial profunda o que contribuiu para sua análise e crítica ao método científico que sustentava a filosofia das ciências, seus métodos e epistemologias até o século dezenove.

 

Peirce, em sua época, promove uma corrente filosófica-científica, o Realismo, que envolve um complexo sistema teórico envolvendo diversas classes de ciências. Segundo o próprio autor, foi influenciado por escolásticos medievais do século treze e catorze, como Duns Scotus (1266-1308) e, também, no século dezoito e dezenove, a teoria de Immanuel Kant (1724-1804), a quem considerava um dos principais pensadores da era moderna. Mas sua filosofia ganhou identidade e se distinguiu dos outros grandes nomes da história do pensamento ocidental, tornando-o personagem fundamental para os rumos da ciência contemporânea. O filósofo norte-americano Floyd Merrell (1937-) cita a contribuição de Peirce para o desenvolvimento científico: “Lógica [...] e metodologia científica, que tornaram possível um número de desenvolvimentos ulteriores envolvendo desde a atual Ciências da Computação até História e Filosofia da Ciência.” (MERREL, 2012).

 

 

 

Cosmossomos - Multiverso

Foto: Dubzaine/Dubdem.

 

O caminho da integração, conjunção e expansão do conhecimento.

 

(...)

 

 

A filosofia tem três grandes divisões. A primeira é a Fenomenologia [...] A segunda é a Ciência Normativa. Que investiga as leis necessárias e universais da relação dos fenômenos aos Fins, isto é, talvez, à Verdade, Justiça, Beleza. A terceira divisão é a Metafísica, que tenta compreender a realidade dos Fenômenos. (C.P.)

 

Peirce configura triadicamente a classificação da Filosofia tendo como primeiro a Fenomenologia, ou Faneroscopia: o estudo dos fanerons (fenômenos). Em segundo, as Ciências Normativas que compreendem a Estética, a Ética e a Semiótica (Lógica). Em terceiro a Metafísica. Todas integradas e orientadas pelo princípio-guia da Realidade. Com este denso sistema teórico, provê os fundamento de uma corrente filosófica, o Realismo, e o Pragmaticismo, método que orienta a investigação científica na conjunção:

 

1. Fenomenologia;

 

2. Semiótica;

    - Ética;
    - Estética;

 

3. Metafísica.

 

O sistema compreende os campos fundamentais da Filosofia como ciência geral, mas também envolve específicas como a Filosofia das Ciências, com abrangência epistemológica, lógica e ontológica.

 

O caminho da integração que a teoria de Peirce incentiva envolve a Ética, como orientadora de práticas e coerências entre ideias e consequências. Na configuração triádica do sistema filosófico, Ética tem a importância de uma ciência normativa, integrando o conjunto de doutrinas com a Lógica (Semiótica), e a Estética. Esta conjunção tem como propósito formar os três “bens” da ciência, como Peirce denominava. O bem lógico, referindo-se à capacidade cognitiva de encontrar a coerência entre significados, signos com objetos ou fenômenos. O bem ético, que indica a responsabilidade de considerar o “todo” das consequências de ideias, bem como a plenitude da diversidade, com intérpretes interagindo em um contexto espaço-tempo-realidade.

 

O bem estético que não se confunde com a atribuição de valor subjetivo (beleza, feiura) mas, na classificação da fenomenologia sobre as qualidades primeiras e perceptíveis de um objeto, seja ele uma imagem agradável ou não: “não existe o mau esteticamente falando [...] existem apenas qualidade diversas estéticas. A minha ideia é de que há inúmeras variedades de qualidade estética, mas não um grau puro de qualidade estética” (C.P.).

 

A Ética de Peirce traz um conceito elementar de sua filosofia: a alteridade. Como comenta o filósofo brasileiro Ivo Ibri, refere-se ao “aspecto negativo do pensamento, aquele elemento experiencial que mais agudamente se evidencia ao negar as consequências práticas da falsa mediação” (2015, p. 149). Em outras palavras, o “não-eu” que corresponde à percepção de todas as diversas existências com as quais interagimos. Conceito basilar da realidade, corresponde à consciência da dimensão coletiva em que convivemos e, assim é condição inevitável para a própria noção de existência enquanto individual. Uma constituição de si por diferença e não similaridade. Naturalmente, não existe um igual ao outro, por mais que similares. Basicamente, o fundamento na alteridade orienta a consciência de que se deve considerar “o outro”. Por esta ótica, definitivamente, Ética não é uma propriedade da moral, mas sim um auxílio para considerar o todo das consequências de nossas ações.

 

 

Pragmatismo

 

É o método que orienta a investigação científica sobre uma dúvida real, apoiada em um sistema lógico integrado e indivisível. Como caraterística geral, indica a necessidade de integração do objeto de pesquisa com o contexto (...). “A aplicação de um termo é a coleção de objetos com os quais ele se refere; a aplicação de uma proposição são os casos em que ela se mantém válida” (C.P., 1867). A teoria do pragmatismo é profunda e envolve o estudo de modos de raciocínio Abdutivo, Dedutivo e Indutivo.

 

O pragmatismo não é um sistema de Filosofia. É apenas um método de pensamento, [...] não resolve qualquer problema real. [...] O efeito do pragmatismo aqui é somente abrir nossas mentes para receber qualquer evidência, e não para fornecer evidência. (C.P.)

 

Peirce evidencia a conjunção que envolve a fenomenologia e o surgimento de uma dúvida real que conduz o pensamento para a investigação, considerando a expansão contextual que abrange todo processo de significação. Amplia o campo de visão ao considerar que um significado envolve também suas consequências práticas, assim como apresenta na máxima:

 

Considere quais os efeitos que possivelmente pode ter a influência prática que você concebe que o objeto de sua concepção tem. Neste caso, sua concepção desses efeitos é o todo de sua concepção do objeto. (C.P.)

 

O autor propositalmente repete as palavras “concepção” dando ênfase de que o conhecimento sobre o objeto só é possível por uma interação no tempo, em que as concepções vão sendo tecidas a partir da observação das condutas em seu contexto. Consequências práticas, refere-se à concordância dos efeitos com as ideias. Mas não em um sentido indutivo-objetivista, como na busca incessante e determinada por um fim, a partir de uma causalidade. É do sentido abdutivo-científico, que significa a coerência entre leis e fenômenos. 

 

 

 

 

(...)

 

Como uma imensa rede constituída, destaca-se seu caráter integrador, associativo e conjuntivo. Teoria dos conjuntos, aliás, é uma associação natural para compreender uma característica primordial do sistema filosófico que Peirce concebeu. Nesta visão sobre sua obra, entende-se que as partes são indissociáveis do todo e sua fragmentação descaracteriza a essência. Desconfigura o todo. Por isso concebeu também o método do Pragmatismo, integrador do sistema. Semiótica sem Fenomenologia como primeira e Metafísica, como ponto-nodal ontológico, não tem muita lógica e o Pragmatismo não funciona. 

 

A conjunção também revela que o caminho para expansão do conhecimento só pode acontecer em coletivo. Adentrar na "era da complexidade", significa juntar partes que foram fragmentadas durante a história do pensamento humano. Significa também abandonar o reino da certeza e da superioridade da razão sobre a realidade. A questão passa a ser: a razão de quem? 

 

Contrário à tendência da individualização so saber, o movimento e a potência do conhecimento se intensifica quanto maior a diversidade, coletivização, vivência e capacidade de inserção desse "eu" no mundo, que percebe que para conhecer ainda mais esse mundo, e consequentemente ampliar seu autoconhecimento, precisa aceitar a diferença como condição natural da realidade. Esse processo é de integração horizontal, fluxo orgânico e expansão em espiral contínuas.

 

Para as ciências em geral, esse movimento conjuntivo representa uma ruptura com o histórico disjuntivo e hipersegmentário que fez surgir inúmeras subclasses científicas, enquanto divide estes saberes entre-fronteiras. Se as partes estão em um alto grau de auto-expansão, o desafio agora é associar todas estas partes e identificar seu centro gravitacional. Em outras palavras, recolocar na pauta a questão sobre o propósito da ciência e investigar causas e consequências de toda a geração do saber. Em contrapartida, compreender que para a maior possibilidade de desenvolvimento científico, mais é necessário formar redes entre diferentes classes de ciências para explicar um fenômeno. No lugar do antropocentrismo, a rede. Por exemplo, linguagem não apenas como propriedade e potência humana, mas princípio universal. Afinal, de plantas à planetas e estrelas, cada um aos seus modos, produzem signos, interagem e se comunicam. Portanto, o fruto da integração é uma expansão contínua do senso cobre as coisas do mundo e o conhecimento de nós mesmos.

 

 


 

 

Cosmossomos - Multiverso

Descobrindo as fissuras. Fotomix: Dubzaine/Dubdem.

 

Pragmatismo e Marcas: fissuras, signos e possibilidades.
 

(...)

 

 

Peirce em sua época não estudou as marcas e o mercado. Produziu textos em que faz sutis comentários críticos ao contexto da época mas não especificamente como tema de trabalho. Porém, a filosofia de Perice fornece bases lógicas elementares para analisar o problema científico e fomenta pensar novos caminhos de significação, conjugando o que pode estar disperso, ausente e incoerente, como muitas vezes demonstram as teorias contemporâneas da marca.

 

Do caminho à conjunção, por exemplo, surge o senso da importância das marcas no contemporâneo e a hipótese de que hoje não se dimensiona sua real importância e influência na sociedade contemporânea, em nível global. Se a marca é um símbolo que se apresenta por signos, resta compreender seu objeto. Nas teorias disponíveis atualmente não fica bem explicada essa conjunção.

 

Parece que o objeto difuso faz da marca um tema do entretenimento, da fantasia e  incrível potência de emancipação dos símbolos. Mas a conjunção e a Ética, por exemplo, ajudam a compreender que a emancipação do símbolo-signo é um argumento incoerente, porque ideias, palavras eimagens não existem sem corpos que as façam reais. Mesmo os termos mais amplos de significado como democracia, equidade, liberdade ou fé não são independentes do coletivo existencial que lhes dê sentido. Se é consenso que o símbolo tem poder sobre o pensamento, é porque se admite a potência do pensamento, ou seja, “seres-organismos-mentes” que em conjunto participam da significação.

 

(...)

O que Multiverso pode compartilhar da experiência até hoje, é que pensar marcas com apoio do pragmatismo é um caminho para um disrupção que acontece naturalmente e abre a mente pra considerar o que muitas vezes é ignorado. Ou seja, abre a mente para observar fissuras e além delas. Abre a visão para a possibilidade de um mundo diferente.

 

 

Queremos criar um mundo diferente. [...] a partir de suas contradições, [...] e queremos entender como nós mesmos somos estas contradições. [...] tem surgido uma onda nos últimos anos, uma crescente percepção [...] , de que temos que criar algo diferente aqui e agora. Estes experimentos são possivelmente os embriões de um novo mundo, os movimentos intersticiais a partir dos quais uma nova sociedade poderia crescer”.  (HOLLOWAY, John, 2011).

 

 

 

 

2019_CSMSSMS_SITE_HOME_BARRA_AZUL.jpg

 

Bibliografia recomendada (disponível em português).

Peirce

 

COLAPIETRO, Vincent M. Peirce e a Abordagem do Self. Uma Perspectiva Semiótica sobre a Subjetividade Humana.

São Paulo: Intermeios, 2014.

 

IBRI, Ivo. Kósmos Noetós: A Arquitetura Metafísica de Charles S. Peirce.

São Paulo: Paulus, 2015.

 

MERRELL, Floyd. A Semiótica de Charles S. Peirce Hoje.

Rio Grande do Sul: Unijuí, 2012

 

PEIRCE, Charles S. Ilustrações da Lógica da Ciência. 1839-1914.

Aparecida: Ideias & Letras, 2008.

 

PEIRCE, Charles S.: Os Pensadores: Escritos Coligidos. 1839-1914.

São Paulo: Nova Cultural, 1989.

 

PEIRCE, Charles S. Semiótica. 1839-1914.

São Paulo: Perspectiva, 2010.

 

SANTAELLA, Lucia. O que é Semiótica?

São Paulo: Brasiliense, 2004.

 

SANTAELLA, Lucia; NOTH, Winfried. Introdução à Semiótica.

São Paulo: Paulus, 2010.

 

 

 

2019_CSMSSMS_SITE_HOME_BARRA_AZUL.jpg

Texturas

Baixe o ensaio "Marca Significa?", de Ricardo da Silva Mello e conheça mais sobre as ideias de Peirce e sua aplicação na análise científica da marca.